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Cientistas descobrem injeção de hormônio que funciona como Viagra para o cérebro

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Cientistas descobriram que um hormônio que surge durante a puberdade, e que desencadeia comportamentos de excitação sexual no cérebro, poderia ser fundamental para o tratamento de questões psicológicas sexuais sob a forma de uma pílula, a qual poderia atuar como um viagra para o cérebro.

A kisspeptina, de ocorrência natural e de nome bastante apropriado, é um hormônio reprodutivo essencial que estimula a liberação de outros hormônios no cérebro, os quais fazem com que nos sintamos românticos, sexy e excitados. Começa no início da puberdade e está associado com o desejo sexual mais jovem.

Pesquisadores do Imperial College de Londres descobriram que uma injeção de kisspeptina aumenta a atividade nas regiões cerebrais associadas à excitação sexual e ao amor romântico. Agora, eles estão interessados em explorar se isso pode ser usado para tratar problemas psicossexuais – aqueles que são psicológicos, não físicos, na origem – e problemas relacionados com a concepção de uma criança. Esse estudo foi publicado no Journal of Clinical Investigation.

“A maioria dos métodos de investigação e tratamento para a infertilidade até o momento tem focado em fatores biológicos que podem tornar difícil para um casal conceber naturalmente”, explicou o professor Waljit Dhillo, que liderou a pesquisa. Estes desempenham um papel importante na reprodução, mas o papel que o cérebro e o processamento emocional desempenham neste processo também é muito importante e só é parcialmente entendido.

O estudo envolveu 29 homens saudáveis heterossexuais que receberam uma injeção de kisspeptina ou um placebo. Foram então mostradas a eles imagens sexuais e não-sexuais de casais românticos, ao passo que seus cérebros eram examinados por ressonância magnética para que os pesquisadores pudessem monitorar sua resposta às fotos.

Eles descobriram que aqueles que receberam a kisspeptina mostraram uma maior atividade em estruturas do cérebro tipicamente ativadas por excitação sexual e romance. A equipe acha que isso demonstra que a kisspeptina aumenta os circuitos comportamentais associados ao sexo e ao amor no cérebro e eles desejam explorar isso mais adiante com um estudo maior que inclui mulheres.

Pensa-se que um em cada 10 homens no Reino Unido sofre com problemas sexuais, incluindo a falta de libido causada por problemas de relacionamento, estresse e ansiedade. Os pesquisadores acreditam que no futuro o hormônio poderia ser administrado em forma de pílula, e que poderia ajudar muitas pessoas com problemas psicossexuais, aqueles que estão lutando para conceber naturalmente, os parceiros que precisam reascender a faísca em seu relacionamento e até mesmo ajudar a tratar a depressão.

De acordo com o Telegraph, quando perguntado se a kisspeptina poderia ser usada como um “Viagra mental”, o Professor Dhillo concordou, dizendo: “Sim, exatamente isso”.

“Em última análise, estamos ansiosos para analisar se a kisspeptina poderia ser um tratamento eficaz para transtornos psicossexuais e, potencialmente, ajudar inúmeros casais que lutam para conceber”, concluiu.

Estudo científico mostra porque o gingado e o rebolado estão sempre em alta na dança

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O carnaval está chegando e se você dança como um robô fazendo um rebolado enferrujado, a ciência pode ter alguns conselhos para você. Psicólogos da Inglaterra usaram a tecnologia de captura de movimento para acompanhar os movimentos de 39 mulheres enquanto elas dançavam ao som de uma batida. Os pesquisadores então traduziram essas informações em um punhado de diferentes vídeos de danças, que foram exibidos a 57 homens e 143 mulheres, todos heterossexuais. Depois de assistirem aos vídeos com duração de 15 segundos, os participantes da pesquisa foram convidados a classificar cada vídeo com base nas habilidades das dançarinas. As descobertas foram publicadas no último dia 10 de fevereiro, na Revista Nature.

A equipe encontrou três características chaves do movimento que indicaram um bom dançarino: movimento grande dos quadris, movimentos assimétricos da coxa, e movimentos um pouco menos assimétricos do braço. Para entender melhor, confira aqui um desses vídeos que mostra o movimento de uma dançarina superpositivamente classificada.

Então por que o gingado e o rebolado é tão eficaz?

Obviamente, a dança é uma arte subjetivamente massiva que pode variar dependendo da cultura, do ambiente social ou mesmo do indivíduo. Além disso, o tamanho da amostra desse estudo é relativamente pequeno. No entanto, o autor principal da pesquisa, Dr. Nick Neave disse que “indicamos que todas as avaliações dão pistas honestas para o potencial reprodutivo, de saúde e da personalidade”.

Por exemplo, o balanço dos quadris parece mostrar que o indivíduo é “enfaticamente feminino”. O movimento simétrico e assimétrico também pode mostrar a qualidade de controle do motor, boa aptidão física e saúde. Os movimentos também têm uma forte quantidade de potencial expressivo para a dançarina, permitindo que ela retrate efetivamente sua personalidade ou expresse sinais para aqueles ao seu redor.

“A maneira como você se move é crucial e está ligada à sua saúde, seu status hormonal, sua personalidade e também possivelmente pode ter relação com a inteligência e a criatividade”, ressaltou o Dr. Neave, em entrevista ao periódico The Guardian. “Somos capazes de interpretar muitas coisas sobre as pessoas a partir da maneira com a qual elas dançam ou se movimentam”.

A mesma universidade realizou estudo semelhante com indivíduos do sexo masculino há cerca de seis anos. Na ocasião, os participantes disseram que os bons dançarinos tinham uma forte variedade de movimentos de repertório que envolviam torcer e girar o tronco e o pescoço.

De curiosidade, veja aqui uma das danças com notas mais baixas. Note a distinta falta de movimento de quadril e personalidade.

Imagina se os cientistas resolvem fazer esse estudo com as passistas do nosso carnaval…

Sedentarismo, declínio cognitivo e o Mal de Azheimer

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Novo estudo publicado no Journal of Alzheimer’s Disease aponta que pessoas mais velhas que não se envolvem em qualquer forma de exercício são tão propensas a desenvolver demência quanto aqueles que têm uma vulnerabilidade genética para a doença.

Para realizar suas pesquisas, os autores do estudo coletaram dados sobre 1.646 canadenses com idade acima de 65 anos e analisaram quais desses indivíduos desenvolveram demência ao longo de um período de cinco anos.

Uma minoria dos envolvidos no estudo levaram uma variante genética particular conhecida como apolipoproteína E (APOE), que os colocou em maior risco de desenvolver placas de proteína em seus cérebros, aquelas que estão fortemente associadas com o declínio cognitivo e o Mal de Azheimer.

No entanto, entre os não-portadores dessa proteína, todos aqueles que não faziam qualquer tipo de exercício físico desenvolveram demência quase com a mesma frequência que as pessoas portadoras da APOE.

Em resposta a esta descoberta, a coautora do estudo, Jennifer Heisz, explicou que “a mensagem importante aqui é que estar inativo pode anular completamente os efeitos protetores de um conjunto saudável de genes”.

Permanecer ativo em seus últimos anos poderia, portanto, ser uma estratégia altamente eficaz para afastar o declínio cognitivo. Mesmo o exercício leve parece conferir benefícios significativos, como a maioria dos não-portadores que não desenvolveram demência e que praticavam caminhadas regulares três vezes por semana.

Infelizmente, os portadores de APOE tinham a mesma probabilidade de sofrer com a demência independentemente se eles se exercitavam ou não. Desta maneira, percebeu-se que essa estratégia parece funcionar apenas para aqueles que não são geneticamente predispostos à demência.

E você, gostaria de afastar ainda mais os riscos de desenvolvimento de demência com nosso programa de treino cognitivo? Saiba mais aqui.

Por que a vingança traz uma sensação prazerosa? Descubra aqui a explicação científica.

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A maioria de nós, em algum momento da vida, já quis se vingar de um inimigo, ou talvez de um amigo. Diz o ditado que a vingança também é doce, e uma nova pesquisa científica parece confirmar que há uma boa razão para isso, pois a vingança equilibraria o nosso humor anteriormente negativo.

Uma história bastante incomum desdobrou-se num artigo no Journal of Personality and Social Psychology. Quando um estudo científico rigoroso envolve bonecas de vodu, você sabe que algo estranho está acontecendo…

Pesquisadores da Universidade de Kentucky pediram a 156 participantes para escreverem um texto sobre um tópico pessoal de sua escolha e então pediram que eles trocassem esse texto com outros para obter um feedback. Isso foi feito no grupo de controle da pesquisa, mas num segundo grupo, um dos pesquisadores fingiu ser um participante e se certificou de deixar o feedback mais terrível para o seu par.

Feito isso, os participantes tiveram a oportunidade de demonstrar o nível de irritação causado (ou não) pelo feedback que receberam. Em seguida tiveram a oportunidade de interagir com uma boneca de vodu virtual, que em parte, se assemelhava ao participante que tinha detonado suas habilidades de redação. Então, eles foram autorizados a enfiar algumas agulhas nesse boneco.

O humor dos participantes foi registrado antes de escrever a redação e após a completa interação com o boneco de vodu. Curiosamente, os participantes mais prejudicados conseguiram recuperar o seu humor original e ficaram felizes depois de realizar um pouco de tortura com o boneco. Entre alguns poucos, no entanto, o humor medido era igual ao daqueles que haviam recebido um feedback positivo.

No entanto, havia uma advertência/limitação neste primeiro estudo. Poderia parecer que as pessoas estivessem buscando vingança por sua rejeição social com o intuito de corrigir seu humor, daí outro “jogo perverso” foi aplicado para determinar se isso era verdade ou não.

Efeito Placebo

Desta vez, 154 novos participantes tiveram que engolir um comprimido – na verdade um placebo (sem efeito) – que deveria aumentar o seu poder cognitivo para testar um jogo. Alguns dos sujeitos foram informados de que um efeito colateral desta pílula era que seu humor permaneceria estável pela primeira metade do experimento.

Eles tiveram que jogar um videogame simples que funcionava assim: eles passariam a bola entre si e outros dois parceiros controlados por computador. A bola foi passada com êxito pelos parceiros virtuais aos jogadores humanos na primeira metade do tempo; já na segunda metade, a bola só foi passada a eles apenas 10 por cento do tempo.

Os participantes dessa segunda pesquisa foram então convidados a descrever como se sentiram e, logo em seguida, foi perguntado se eles gostariam de se vingar dos seus parceiros no jogo virtual. Aqueles que desejavam vingança foram convidados a jogar um outro jogo virtual que tinha como recompensa a oportunidade de torturar seu adversário.

Neste novo jogo, os participantes tiveram que competir numa corrida. O vencedor foi recompensado com a chance de tocar um ruído nos ouvidos de seu oponente. A cada vitória sucessiva, eles foram autorizados (se assim desejassem) a aumentar os decibéis dos ruídos até o volume de um helicóptero pairando apenas sobre o ouvido do perdedor.

Como esperado, aqueles que optaram por aumentar mais o volume foram aqueles que haviam sido “rejeitados” anteriormente (e mais frequentemente) no videogame anterior.

Curiosamente, houve exceção: aqueles que haviam tomado a pílula “estabilizadora do humor”. Parece que a perspectiva de que seu humor não iria mudar durante o primeiro jogo, significava que eles nunca viram (ou sentiram) qualquer justificativa para tentar corrigir seu humor através da vingança.

Neste sentido pode-se sim dizer que a vingança é doce! Afinal, pode ser usada para conscientemente dar ao nosso “eu” injustiçado um impulso emocional positivo. Mas por mais que a vingança possa ser “saborosa” como diz o ditado, seus frutos podem ser bem amargos como sabemos na vida real…

Saiba mais sobre os estudos em: http://psycnet.apa.org/psycinfo/2016-52939-001/

Treino no computador traz mais benefícios que palavras cruzadas

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O estudo conhecido como IHAMS foi o primeiro a demonstrar que o treino cognitivo computadorizado traz um desempenho melhor que palavras cruzadas

 

Pesquisadores da Universidade de Iowa relataram, em artigo publicado na revista científica PLOS ONE, a descoberta de que um grupo de pessoas que praticou exercícios cognitivos computadorizados por apenas 10 horas obteve ganhos significativamente superiores nas funções cognitivas em relação a outro grupo que exercitou o cérebro somente com as tradicionais palavras cruzadas. O estudo comparou usuários mais velhos com mais jovens, usuários sozinhos em casa com usuários num ambiente clínico supervisionado, bem como usuários que praticaram os exercícios de fitness cerebral por tempos variáveis.

 

Concepção do Estudo e Objetivos

 

Liderado pelo pesquisador Fred Wolinsky, P.h.D. do Departamento de Gestão e Políticas de Saúde da Universidade de Iowa, o IHAMS foi planejado para superar as limitações do estudo ACTIVE (cujos participantes tinham 65 anos de idade ou mais), ao incluir participantes mais jovens (50 anos ou mais).

Os 681 participantes do IHAMS foram distribuídos aleatoriamente em quatro grupos: o primeiro recebeu 10 horas de treinamento cognitivo no local com um exercício da plataforma BrainHQ que melhora a velocidade de processamento e de campo útil de visão (o exercício Dupla Decisão, originalmente desenvolvido com financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde e que está agora comercialmente disponível em nossa plataforma on-line).

Outro grupo recebeu enigmas de palavras cruzadas, enquanto os outros grupos separados praticaram o exercício Decisão Dupla em diferentes contextos – por conta própria em casa, em ambiente supervisionado, e ainda em ambiente supervisionado com quatro horas extras de treinamento. Os pesquisadores também compararam os participantes com idades entre 50 e 64 contra aqueles com idade igual ou maior que 65 anos. Todos os grupos foram avaliados antes do início do estudo, com 6 a 8 semanas durante o estudo e, em seguida, aos 12 meses após o término do mesmo.

O estudo IHAMS tinha vários objetivos, um dos quais foi determinar se o treinamento cerebral era superior às atividades “padrão” para a melhoria cerebral – neste caso, enigmas de palavras cruzadas. “Houve um debate na comunidade científica sobre a eficiência de funcionamento do treinamento cerebral computadorizado comparado à outras atividades mentais de lazer, como aprender uma nova língua ou fazer palavras cruzadas”, lembra o Dr. Fred Wolinsky. “Este estudo demonstra claramente que o uso de exercícios especialmente projetados para fins de fitness cerebral – como os exercícios de velocidade de processamento da plataforma BrainHQ – dão mais trabalho, mas são muito mais eficazes na melhoria da função cognitiva do que outros jogos ou atividades recreativas”, completa John W. Colloton, então presidente em Gestão e Políticas de Saúde da Universidade de Iowa.

 

Resultados melhores

 

Os resultados iniciais mostraram que os participantes que usaram o exercício da plataforma BrainHQ™ exibiram melhorias significativamente superiores em suas capacidades cognitivas – através de vários testes neuropsicológicos de funcionamento cognitivo – em relação aos participantes que treinaram só com as palavras cruzadas. As melhorias nas funções cognitiva foram as mesmas, tanto com a prática dos exercícios no contexto clínico monitorado ou na casa do participante. Estas mudanças positivas foram observadas em menos de 8 semanas e foram mantidas ao longo de 12 meses. O sub-grupo de participantes que recebeu treino extra de quatro horas obtiveram ganhos ainda maiores.

As melhorias para os participantes mais jovens eram tão grandes quanto aquelas para os participantes mais velhos, indicando que o treinamento cerebral pode e deve ser iniciado o mais cedo possível. Mas o mais surpreendente na pesquisa foi o fato de as pessoas que fizeram os exercícios por conta própria em casa terem se saído tão bem quanto as pessoas que os fizeram sob supervisão (contexto clínico). Isso indica que o treinamento pode ser amplamente implantado via on-line e com baixo custo.

Saiba mais sobre o exercício Dupla Decisão

Vícios podem ser detectados no cérebro mesmo após a morte

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Tornar-se viciado em drogas ou sexo faz com que haja alterações no cérebro que podem ser vistas até mesmo após a morte. Além de ajudar os investigadores forenses a descobrir como seus “clientes” poderiam ter vivido e morrido, as implicações desta descoberta também lançam luz sobre a razão pela qual viciados têm tanta dificuldade de mudar seus hábitos, mesmo ficando em abstinência por um longo tempo.

Quando realizamos atividades altamente prazerosas como ter relações sexuais ou usar drogas, uma proteína chamada FosB torna-se ativa nas partes do cérebro que compõem o chamado circuito de recompensa. Depois de se combinar com outras proteínas, a FosB liga-se a receptores locais que promovem a expressão de certos genes neurais que, por sua vez, alteram a atividade dos neurônios relevantes.

No entanto, estudos anteriores mostraram que quando as pessoas desenvolvem vícios, a constante tensão colocada em FosB faz com que ele sofra alterações epigenéticas, o que significa que a sua expressão genética se torna alterada pela adição de certas moléculas ao seu DNA. Como resultado, ela se transforma em uma proteína ligeiramente diferente conhecida como DeltaFosB.

Isto é particularmente perigoso porque a DeltaFosB é mais estável do que FosB e, portanto, persiste no cérebro por um período mais longo. Consequentemente, ela produz mudanças muito mais duradouras na atividade neural, que é o que leva à fissura e à dependência.

Em um novo estudo publicado no Journal of Addiction Research and Therapy, uma equipe de cientistas examinou os cérebros de 15 viciados em heroína recentemente falecidos e descobriu que o DeltaFosB ainda podia ser visto nas regiões cerebrais responsáveis pelo prazer e pela memória nove dias após a morte.

Eles suspeitam que essa proteína pode persistir por mais tempo em vivos, o que traz alguma luz sobre por que os viciados em recuperação frequentemente continuam a sentir desejos, mesmo depois de ter parado de consumir determinada droga e, ainda: por que tantas pessoas têm recaídas.

A coautora do estudo, Monika Seltenhammer, explicou que isso poderia ter implicações para o desenvolvimento de novas estratégias para tratar aqueles que tentam superar um vício. “Se o desejo viciante pode persistir no cérebro por meses, é muito importante prover o cuidado contínuo prolongado e o apoio psicológico correspondente,” ressaltou a pesquisadora.

Neurogames ajudam pacientes com câncer a reverter o declínio cognitivo

Pesquisa Cepe

Novo estudo importante sobre o déficit cognitivo relacionado ao câncer – muitas vezes chamado de “chemobrain” – foi recentemente publicado no Journal of Clinical Oncology. No estudo, os sobreviventes de câncer foram capazes de reverter os sintomas do dano cognitivo, em suas próprias casas, ao adicionar exercícios computadorizados para o cérebro como parte do tratamento. Os participantes do estudo que usaram esses exercícios relataram menor prejuízo cognitivo, estresse, fadiga e ansiedade/depressão imediatamente após o treinamento e seis meses depois. Esta é a primeira vez que um estudo demonstrou que uma intervenção prática é eficaz contra o comprometimento cognitivo relacionado com o câncer.

Perguntas frequentes (FAQ) sobre o estudo – elaborado e divulgado pela Posit Science™:

1. O que é Chemobrain (ou Declínio Cognitivo Relacionado ao Câncer)?

Na década de 1980, os grupos de apoio aos sobreviventes de câncer de mama começaram a chamar a atenção para diferentes tipos de comprometimento cognitivo, como um efeito adverso da quimioterapia que persistiu mesmo após o termino do tratamento. Inicialmente, essa condição era chamada de “chemobrain” ou “chemofog”. Na década de 1990, a condição passou a ser chamada de “declínio cognitivo” relacionado ao câncer ou “induzido pelo câncer” . Usamos portanto o termo “declínio cognitivo relacionado ao câncer”.

2. O que causa o Declínio Cognitivo Relacionado ao Câncer (DCRC)?

Existe discordância entre especialistas quanto à sua causa (ou causas): o câncer em si, o tratamento do câncer, o estresse relacionado à condição do paciente, e disfunção inflamatória. Existe um crescente consenso de que a condição pode surgir de múltiplas causas.

3. Qual a prevalência, persistência e severidade DCRC?

As estimativas variam de 10 a 40% dos sobreviventes de câncer em geral e até 70% dos pacientes tratados com quimioterapia. A pesquisa indica que os sintomas podem persistir por 10 ou mais anos. Efeitos (assim como com outras formas de comprometimento cognitivo) podem interferir na manutenção da capacidade de trabalho, relacionamentos, qualidade de vida e independência no cotidiano. Milhões de pacientes recebem quimioterapia a cada ano e, globalmente, há mais de 35 milhões de pessoas com mais de cinco anos de câncer.

4. Qual é o desenho deste estudo?

O estudo foi desenvolvido como um estudo pragmático, longitudinal. Os ensaios “pragmáticos” foram concebidos para avaliar a eficácia das intervenções em condições “reais”. Aqui, o estudo foi concebido para alcançar resultados em casa, usando avaliações e treinamentos que poderiam ser realizados sem supervisão direta. Os participantes do estudo foram randomizados para um grupo de intervenção. Antes da randomização, todos os indivíduos participaram de um estudo de 30 dias, através de consultas minuciosas em que descreviam suas estratégias para combater o declínio cognitivo. O grupo controle (121 participantes) recebeu cuidados-padrão de profissionais de saúde. O grupo que sofreu a intervenção (121 participantes) também recebeu tratamento padrão, e foi solicitado a completar 40 horas de exercícios cerebrais durante o curso de 15 semanas (40 minutos por sessão, 4 vezes por semana). Cada participante foi avaliado no início do estudo, após 15 semanas e seis meses depois.

5. Quem participou neste estudo?

Os pesquisadores recrutaram adultos sobreviventes de câncer através de 18 sites australianos, que tinham sido tratados por uma doença primária (não-CNS) maligno, que tinham completado pelo menos três ciclos de quimioterapia nos meses anteriores a pesquisa, e que relataram sintomas cognitivos persistentes. Os participantes precisavam ser fluentes em inglês e ter acesso a um computador e à Internet. Dos participantes, 95% eram do sexo feminino com idade média de 53 (com uma faixa etária de 23 a 74). Cerca de 89% tinham câncer de mama, 5% tinham câncer colorretal e o restante possuia outros tipos de cânceres.

6. Quem dirigiu este estudo?

Pesquisadores do Survivorship Research Group, da Universidade de Sydney (Austrália) organizaram e relataram o estudo. Os autores do estudo são:

Victoria J. Bray, Universidade de Sydney; Hospital de Liverpool – primeiro autor

Haryana M. Dhillon, Universidade de Sydney

Melanie L. Bell, Universidade de Sydney; Universidade do Arizona

Michael Kabourakis, Universidade de Sydney

Mallorie H. Fiero, Universidade do Arizona

Desmond Yip, Universidade Nacional Australiana

Frances Boyle, Universidade de Sydney;

Patricia Ritchie, Centro de Cuidados e Pesquisa do Câncer

Melanie A. Price, Universidade de Sydney

Janette L. Vardy, Universidade de Sydney – autor sênior

7. Quem pagou por este estudo?

O financiamento e apoio foram fornecidos por: Cancer Council New South País de Gales, Fundação Amigos da Mater, Instituto do Câncer Nova Gales do Sul Clinical Fellowship (V.J. Bray), uma Sociedade de Oncologia Clínica da Austrália / Roche Hematology Oncology Targeted Terapias Fellowship (V.J. Bray.), Pfizer Cancer Research Grant (V.J. Bray), e pelo National Breast Cancer Fundação (J.L. Var).

8. O que o estudo mostrou?

O estudo teve muitas medidas de resultado. A principal questão do estudo era se o uso desses exercícios computadorizados proporcionava a diminuição da experiência de um paciente com alterações cognitivas negativas. Os exercícios tiveram esse efeito.

9. Qual foi seu resultado primário?

A medida de resultado primária para este estudo foi auto-relatada Função Cognitiva, conforme avaliado pelo questionário FACT-COG, Insuficiência Cognitiva (PCI). O resultado primário foi o FACT-COG PCI pontuação, medida imediatamente após o treinamento.  Os pesquisadores relataram que os participantes do grupo que obteve a intervenção, em comparação ao grupo controle, relataram um desempenho significativamente melhor nesta medida (a medida de resultado primária – FACT-COG PCI) imediatamente após a intervenção (p <0,0001) e seis meses depois (P < 0,0002).

10. Quais foram os resultados secundários do estudo?

O estudo estabeleceu uma série de medidas de desfecho secundário. Uma das principais medidas de desfecho secundário foi a função neuropsicológica, medida através da plataforma Cogstate. As outras medidas de resultado secundárias foram amplamente utilizadas e validadas com questionários de autoavaliação, incluindo: ansiedade e depressão (questionário de saúde geral com 12 itens), qualidade de vida (FACT-General), fadiga (FACT-Fadiga subescala) e estresse (14 itens – Escala de Stress Percebida). As outras subescalas (não PCI) do FACT-COG também foram usadas como medidas secundárias.

Para mostrar o principal resultado secundário da função neuropsicológica, os participantes completaram a bateria de 7 testes da Cogstate (que também podem ser realizados no computador em casa). Essa avaliação leva cerca de 18 minutos e mede a cognição em áreas como velocidade de processamento, memória de trabalho, tomada de decisão e função executiva.

Os pesquisadores descobriram que, após 15 semanas, os pacientes que fizeram os exercícios tiveram uma redução de 7,47 na PCI em comparação com os do grupo controle (IC 95%, intervalo: -10,8 a -4,13; P <0,001), e essa diferença persistiu após 6 meses, quando se observou uma redução de -6,48 na PCI no grupo de intervenção (IC 95%, -9,85 a -3,11; P <0,001).

As habilidades cognitivas percebidas após 15 semanas também melhoraram significativamente (3,34, IC 95%, 1,98 a 4,70, P <0,001) entre aqueles que fizeram os exercícios on-line e continuaram boas após 6 meses (2,88; IC95%, 1,50 a 4,25; P <0,001). Além disso, segundo os próprios participantes, a qualidade de vida foi significativamente melhorada 6 meses após o término o programa de treinamento cognitivo.

O grupo que treinou com os exercícios computadorizados teve desempenho significativamente melhor na maioria das medidas secundárias, incluindo a medida de estresse logo após intervenção e após seis meses; as medidas de fadiga e ansiedade / depressão após o treino e com tendência de melhor desempenho em seis meses; sobre a qualidade de vida, após seis meses, mas não imediatamente após o treinamento.

11. Quais foram os exercícios cerebrais utilizados neste estudo?

O grupo de intervenção utilizou cinco níveis de velocidades visuais dos exercícios de processamento desenvolvidos pela Posit Science, e comercialmente disponíveis como parte do programa on-line BrainHQ, que a NeuroForma disponibiliza no Brasil e países de Língua Portuguesa. Os exercícios utilizados foram:

Dupla Decisão

Olho de Águia

Ondas Visuais

Foco nos Detalhes

Olho Vivo

Esses exercícios representam o conjunto básico dos jogos de processamento visual da plataforma on-line BrainHQ, que ainda inclui o exercício Decisão Dupla, visando ao aprimoramento da velocidade e precisão da percepção visual (que é frequentemente referida no meio neurocientífico como “UFOV® training” ou “speed training” / treino de velocidade UFOV®). Mais especificamente, esses exercícios visam melhorar a velocidade de processamento visual, foco, atenção seletiva, atenção dividida, memória de trabalho, precisão, acuidade, campo de busca, campo de visão útil, atenção periférica e central, direção e rastreamento de objetos múltiplos.

12. Quais foram os níveis de uso dos exercícios no estudo?

Os pacientes do grupo que obteve a intervenção foram convidados a completar 40 horas de treinamento. Níveis de uso dos exercícios cerebrais variados pelo paciente, com média de uso de 25,08 horas (e um intervalo de 0,19 a 55,82 horas). Cerca de 14% dos pacientes só começou e os 86% restantes fizeram pouco mais de 34 horas de média.

13. Quais são as conclusões dos autores?

Os autores concluem no estudo: “pesquisas anteriores mostraram ser viável a reabilitação cognitiva, com evidências preliminares de eficácia. Nosso grande RCT [Ensaio Controlado Aleatório] acrescenta peso a esta evidência, confirmando que a prática dos exercícios de velocidade de processamento visual levou a uma melhoria nos sintomas cognitivos. Mais importante também é que houve melhorias no PRO [resultados relatados pelos pacientes], incluindo QV [qualidade de vida] e estresse, fadiga e ansiedade / depressão. O programa tem vantagens de ser relativamente barato e pode ser executado em casa (basta um computador conectado à Internet), sendo que os indivíduos podem dirigir seu próprio treinamento. O programa tem o potencial de se uma nova opção de tratamento para pacientes com sintomas de câncer, onde anteriormente não existiam”.

14. Como isso se encaixa com a literatura científica anterior?

Este estudo amplia o trabalho relatado em 2012 no documento “Treinamento Cognitivo Avançado para sobreviventes de câncer de mama: um estudo randomizado controlado”, publicado na revista Breast Cancer Research. O principal autor foi a Dra. Diane Von Ah, e nos referimos a esse estudo anterior como o “estudo Von Ah”. O estudo de Von Ah analisou 82 sobreviventes de câncer de mama, randomizados em três grupos. O primeiro grupo usou os mesmos cinco exercícios de velocidade de processamento presentes na plataforma on-line BrainHQ; o segundo grupo utilizou um programa de treinamento da memória que ensinava estratégias de lembranças; e um terceiro foi um grupo controle de lista de espera. Cada intervenção foi administrada aos grupos em 10 sessões de uma hora, completadas ao longo de 6-8 semanas. As avaliações dos resultados primários foram profissionalmente administradas. Testes neuropsicológicos com objetivos de mensurar as capacidades de memória e velocidade de processamento. Houve uma série de medidas de resultado secundárias, incluindo: função cognitiva, sintoma aflição (humor, ansiedade, fadiga) qualidade de vida e satisfação com a intervenção. Os dados foram coletados ao longo de 2 meses. Von Ah e colegas descobriram que ambas as intervenções melhoraram significativamente o desempenho cognitivo objetivo relacionado ao domínio mental (o grupo de treinamento de memória foi significativamente melhor em testes de memória do que o grupo controle. Em relação ao processamento visual o grupo de treinamento de velocidade foi significativamente melhor no teste comparado com o grupo controle). No entanto, o grupo de treinamento de velocidade mostrou transferência das melhorias para a capacidade de memória, após os dois meses de  treinamento, que se apresentaram ainda maiores do que o grupo de treino de memória. Os resultados do estudo Von Ah levaram a uma nova diretriz na clínica da Oncological Sociedade de Enfermagem que passou a recomendar este tipo de treinamento do cérebro (https://www.ons.org/practice-resources/pep/cognitive-impairment). O novo estudo amplia esses resultados, passando a um estudo pragmático, no qual os pacientes foram orientados a fazer uso da intervenção BrainHQ por conta própria, em suas casas. Isso apresenta um enorme impacto nas possibilidades de economia, distribuição e administração do treino cognitivo computadorizado.

Como o estresse prejudica nosso cérebro?

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Cada evento estressante que vivenciamos pode ter um impacto importante e duradouro em nossos cérebros, danificando a estrutura e alterando a função de regiões-chave, revela uma nova pesquisa publicada na revista Nature.

Sabe-se há muito tempo que o estresse sustentado – também conhecido como estresse crônico – apresenta consequências cognitivas extremas, levando a uma série de transtornos mentais, como transtorno de estresse pós-traumático. Contudo, os perigos do estresse agudo e do impacto de momentos traumáticos isolados permanecem em grande parte inexplorados.

A equipe, portanto, decidiu observar o cérebro de ratos depois de terem sido submetidos a um episódio de 40 minutos de estresse, durante o qual eles receberam um choque elétrico repetidamente no pé. Os autores do estudo explicam como isso causou a liberação de um hormônio do estresse chamado de corticosterona, que por sua vez causou um aumento maciço nos níveis de um neurotransmissor chamado glutamato em uma parte do cérebro chamada de córtex pré-frontal (PFC).

Uma vez que o glutamato é uma molécula excitatória, ele fez com que os neurônios do PFC começassem a disparar rapidamente. No momento em que os níveis de glutamato começaram a retornar ao normal, cerca de 24 horas depois, muitos desses neurônios tinham ficado danificados.

Mais precisamente, os dendritos desses neurônios – que são os ramos de conexão que contêm os receptores de glutamato – sofreram atrofia ou morte celular. Isto é significativo porque o PFC está fortemente envolvido na cognição superior e é essencial para a nossa capacidade de pensar racionalmente e tomar decisões.

O fato de que esse dano permaneceu visível por até duas semanas após o experimento sugere que mesmo os pequenos episódios de estresse podem danificar de forma duradoura a estrutura de nossos cérebros e ainda, como os autores do estudo afirmam: “as consequências do estresse agudo estão longe de ser simplesmente agudas.”

– O estresse contínuo é dos maiores venenos para o nosso cérebro. A melhor forma de evitá-lo é cultivando hábitos saudáveis, como praticar exercícios físicos e cognitivos, manter uma dieta balanceada , respeitar os horários de trabalho e de sono, bem como os momentos de lazer – explica o médico-psiquiatra Rogério Panizzutti, fundador da NeuroForma.

Por que nosso cérebro não consegue decifrar truques de mágica?

Por que nosso cérebro não consegue decifrar truques de mágica?

Coelho na cartola

Nós, adultos, sabemos que quando vemos um truque de mágica o que nos engana não é a mágica de verdade, mas algum tipo de truque que nos faz pensar que estamos vendo algo que não poderia acontecer no mundo real. E, mesmo assim, o truque não fica menos divertido ou menos surpreendente. Então, por que não podemos ver através deles e saber o que realmente está acontecendo?

A resposta é que nossos cérebros não são realmente configurados para lidar com a ambiguidade perceptiva. Quando vemos o mágico fazer movimentos específicos com as mãos ou braços, interpretamos suas intenções e as classificamos com base em experiências passadas. Um bom mágico usa um movimento reconhecível para fazer algo inesperado.

Nossos cérebros não conseguem fazer várias tarefas ao mesmo tempo muito bem. Assim, mesmo intelectualmente cientes de que é impossível que bolas desapareçam da mão do mágico e reapareçam dentro de uma caixa fechada sobre a mesa, por exemplo, não somos capazes de conciliar o fato de que as bolas foram de fato transferidas da mão para a caixa.

Nossos cérebros dependem de pistas visuais, por vezes referidas como as leis da Gestalt da visão, para dar sentido ao que vemos. Esperamos continuação e organização racional, mas quando esses conceitos estão em falta, não conseguimos descobrir o motivo (no caso decifrar qual foi realmente o truque de mágica a que acabamos de assistir!).

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A pior parte da esquizofrenia não é o que você pensa

Staglin, Brando Esquizofrenia

Brandon Staglin nas vinícolas de Rutherford, Califórnia.

Brandon Staglin perdeu o contato com a realidade pela primeira vez no verão de 1990 após entrar na faculdade. Seu primeiro relacionamento sério tinha acabado. De volta a sua casa na Califórnia (EUA), ele estava lutando para encontrar um emprego temporário durante o verão. Foi quando as vozes se tornaram impossíveis de ignorar.

Staglin conta que não conseguia dormir e achava que um muro tinha caído dentro de sua cabeça, deixando o lado direito oco. “Eu senti que tinha perdido metade do meu espírito”. Ele lembra que chegou a cobrir seu olho direito com a mão, com medo de que uma nova personalidade fosse preencher o vazio.

O pensamento delirante, como este, muitas vezes é acompanhado de vozes e de outras alucinações. É um sintoma clássico da psicose que predomina entre as pessoas com esquizofrenia.

Travis Webster Esquizofrenia
Travis Webster na casa de sua mãe em La Jolla, Califórnia.

Travis Webster também teve seu pior momento quando ele tinha 18 anos, em 2013. Diagnosticado com transtorno esquizoafetivo, que combina a psicose com humor selvagem, ele deixou de tomar uma medicação. Isso levou a um conflito com seus pais, pensando que os mesmo estavam conspirando contra ele, apesar dos esforços por parte dos pais em tentar ajudar. Ele já havia entrado com um processo judicial para obter uma medida de restrição contra a sua família quando dois policiais e um assistente social bateram à sua porta no centro de San Diego (Califórnia).

As coisas rapidamente saíram do controle na medida que ele resistia às tentativas dos policiais para contê-lo. “Eu tinha 1,95m de altura e 100kg”, lembra Webster. Ele deu um soco no rosto de um deles e foi condenado a dois meses de prisão.

Mas hoje a vida ficou melhor para ambos. Atualmente, a psicose é controlada por medicação e eles se tornaram defensores da saúde mental: Staglin ajuda a administrar o Instituto Uma Mente – uma organização de pesquisa criada por sua família produtores de vinho na Califórnia – e Travis fala sobre suas experiências em escolas locais. Silenciar as vozes e banir os delírios, no entanto, não significa que tudo ficou tudo perfeito. Ambos eram bons alunos, mas suas notas entraram em queda livre quando foram afetados pela psicose. E mesmo depois que os sintomas foram controlados, eles ainda tem muitas dificuldades para se concentrar nos estudos.

Alucinações e delírios podem ser a face pública da esquizofrenia, mas os sintomas cognitivos ocultos – que incluem a dificuldade em se concentrar em tarefas mentais, compreender a fala, e lembrar-se com precisão do que aconteceu – faz com que seja muito difícil ter uma vida produtiva e satisfatória.

“Eles podem ouvir vozes e aprender a ignorá-las”, diz Cameron Carter, professor da Universidade da Califórnia, especialista nos aspectos cognitivos da esquizofrenia. Mas é difícil acompanhar conversas das pessoas se você literalmente não pode processar o que elas estão dizendo.

Entretanto, Staglin e Travis – juntamente com dezenas de outros voluntários – encontraram um alívio ao praticar jogos de computador destinados a reforçar as suas capacidades mentais. Eles participaram de estudos conduzidos por Sophia Vinogradov (foto abaixo) e seus colegas da Universidade da Califórnia, em San Francisco, que realizam pesquisas na área de neuroplasticidade – o conceito de que o cérebro muda em resposta à forma como ele é usado. Isto significa que os circuitos neurais podem ser reforçados através de treinamento mental, assim como um atleta constrói seus músculos ao malhar na academia.

Sophia Vinogradov

Os jogos computadorizados foram projetados por neurocientistas da empresa Posit Science, sediada na Califórnia. A empresa tem como diretor-científico um dos pioneiros da neuroplasticidade, o médico PhD Michael Merzenich, também professor da Universidade da Califórnia.No Brasil e países de língua portuguesa, os jogos são disponibilizados pela NeuroForma Tecnologias®, empresa sediada no Rio de Janeiro, sendo traduzidos e adaptados ao português sob a supervisão do médico PhD Rogério Panizzutti, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Eles ajustam a sua dificuldade automaticamente para que os jogadores obtenham sucesso em apenas cerca de 80% das tarefas. Ao melhorar o seu desempenho, o jogo fica mais difícil. Se a sua concentração desliza, as tarefas podem ficar um pouco mais fáceis até que você recupere seu ritmo. É como ter um personal trainer na academia, mantendo-o na zona correta para construir a força e fitness, sem faltar ou treinar demais. E como um regime de aptidão física, a melhora só vem com a persistência. Os estudos de Sophia Vinogradov normalmente envolvem até 50 horas de treinamento no espaço de 8 a 10 semanas.

“Se você não fizer o treinamento de forma intensiva, você não vai obter os mesmos resultados”, ressalta Vinogradov. “Você precisa voltar a cada três dias, e fazer suas repetições novamente.”, completa a neurocientista. Confira aqui o estudo que está sendo feito na mesma linha de pesquisa com pacientes portadores de esquizofrenia e transtornos cognitivos leves no Instituto de Psiquiatria da UFRJ.

Staglin Brandon
Brandon Staglin

Depois de seu primeiro episódio psicótico, Staglin voltou às suas aulas no Dartmouth College em New Hampshire, mas suas notas despencaram. Ele finalmente foi capaz de melhorar suas notas, mas ao custo de se isolar socialmente e dedicar quase toda a sua energia mental para os estudos. A leitura era um grande esforço. Sentia-se socialmente desajeitado e conta que se esforçava para fazer amigos.

Após a faculdade, Staglin trabalhou para uma empresa de engenharia de satélites em Palo Alto, Califórnia, e estava pleiteando uma vaga para a pós-graduação no MIT quando a pressão se tornou grande demais novamente. “Eu tive que renunciar ao meu trabalho. Eu não conseguia focar. Não conseguia me concentrar “, lembra ele.

Assim, no final dos anos 1990, Staglin participou de alguns dos primeiros experimentos de Vinogradov, que foram projetados para ajudar as pessoas com esquizofrenia a compreenderem a fala e outros sons. Entre outras tarefas, ele teve que dizer se um tom rapidamente subia ou descia como é o caso do exercício Ondas Sonoras disponível em nossa plataforma on-line. Staglin diligentemente fez suas repetições e viu surgirem os benefícios depois de muitos anos de luta com os sintomas cognitivos da esquizofrenia.

Para Staglin, perceber que estava ficando melhor nessas tarefas aumentou sua confiança. Como seu desempenho melhorou, tornou-se mais extrovertido. “Não tenho dúvidas que é por causa dos benefícios cognitivos de ser capaz de perceber e compreender conversas melhor”, disse ele.

Apesar dos benefícios da experiência inicial para Staglin e outros voluntários, demorou vários anos para que a pesquisa ganhasse financiamento. Em seu primeiro grande estudo, publicado em 2009, a equipe de Vinogradov convidou pessoas com esquizofrenia para visitar o seu laboratório e jogar uma variedade de jogos para melhorar a forma como eles entendem os sons. Além do exercício de distinguir “os tons de subida ou descida”, eles também praticaram exercícios de distinção entre sílabas distorcidas contendo sons semelhante, além de exercícios mais complexos, como lembrar detalhes de conversas “jogadas” na tela.

Os voluntários que tinham treinado com esses exercícios, posteriormente realizaram testes em que eles tinham que lembrar as palavras. Eles tiveram melhor desempenho do que um grupo de controle participante da pesquisa e que havia treinado somente em jogos de quebra-cabeça. Eles também se saíram melhor em testes gerais de capacidade cognitiva. Surpreendentemente, os ganhos foram cerca de duas vezes maiores que aqueles tipicamente relatados em estudos de treinamento cognitivos anteriores. E os benefícios ainda podiam ser verificados seis meses depois.

Devido a esse sucesso inicial, a neurocientista Sophia Vinogradov e seus colegas têm estudado e testado diferentes jogos de treinamento que trabalham também circuitos cerebrais responsáveis por processar informações sociais – por exemplo, pedindo voluntários para ler as emoções em imagens de rostos de pessoas. Os pesquisadores também tentaram intervir no início da doença (assim como Staglin e Travis, a maioria das pessoas que tem esquizofrenia sofre seu primeiro episódio ainda jovem)

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No ano passado, no Congresso Internacional de Pesquisa em Esquizofrenia, em Colorado Springs, a equipe de Vinogradov informou que o treinamento fez mais do que aumentar as habilidades cognitivas de jovens recém-diagnosticados: ele também pareceu reduzir a gravidade dos seus sintomas psicóticos, medidos seis meses mais tarde.

Isso não significa que o treinamento cerebral pode substituir as drogas que controlam as alucinações e os delírios. Mas sugere que os jogos computadorizados cientificamente projetados podem ajudar a proteger o cérebro da “fiação rompida”, que se acredita ser a principal causa dos sintomas da esquizofrenia.

Os pesquisadores querem transformar as melhorias cognitivas em fatores reais de mudança de vida, mas ainda não está comprovado se o treinamento pode fazer uma grande diferença no que se trata de manter um emprego por exemplo. Vinogradov acha que isso pode exigir uma combinação dos jogos de computador com outros tratamentos, como a terapia ocupacional, a fim de ajudar as pessoas com esquizofrenia a gerenciar as tarefas diárias, e também com baixas doses de drogas estimulantes, que podem melhorar o foco.

 

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Travis se envolveu na pesquisa de Vinogradov somente no ano passado (2015), como voluntário do estudo que está testando se o treinamento funciona com o uso de um tablet iPad – para que os jovens com esquizofrenia possam realizar seu treino de casa ou qualquer outro lugar com conexão à Internet.

Assim como Staglin, Travis tinha dificuldades com tarefas mentais e sentia-se socialmente isolado. Estes problemas foram agravados, lembra ele, por várias concussões durante o seu tempo na cadeia, quando ele foi espancado por outros internos.

“Eu começava a fazer a lição de casa e não conseguia continuar”, diz Travis. “Ficava extremamente irritado nesse estado”, completa ele.

Travis conta que vem sentindo o treinamento com os jogos computadorizados no tablet ajudar bastante. “Eu comecei a perceber que eu estava menos ansioso, inclusive quando estava em público”, lembra ele. “Meus pensamentos tornaram-se mais organizados”, ressalta.

Jogos projetados para ajudar um usuário a compreender o que se está vendo, aprimoram a visão periférica e tem o potencial de aumentar a consciência durante conversações. A mãe de Travis notou que ele passou a responder mais rapidamente – anteriormente suas conversas eram pontuadas por longas pausas.

Ainda assim, Travis, muitas vezes interrompia os jogos antes do tempo porque ele achava os exercícios chatos. “Eu deveria fazer cinco horas por semana. Eu acabava fazendo três”, disse ele. “Com a esquizofrenia, é muito comum ter falta de motivação”, resume.


Intervenção preventiva

A equipe da neurocientista Sophia Vinogradov agora está se concentrando em intervir ainda mais cedo, em jovens que ainda não tiveram um episódio psicótico completo, mas que estão começando a se comportar estranhamente ou que têm dificuldade em distinguir os sonhos da realidade. Os pesquisadores já demonstraram que o treinamento ajuda os jovens em alto risco de desenvolver psicose a ficarem melhores para se lembrar das palavras e das coisas, o que já é um grande avanço para não perderem a conexão com a realidade.

 

Mas a ideia de iniciar o tratamento antes que as pessoas tenham tido um surto psicótico completo é controversa. A Síndrome de Psicose Atenuada que se destina a descrever as pessoas em risco de desenvolver esquizofrenia, foi rejeitada como um novo diagnóstico psiquiátrico em 2012. Os críticos argumentavam que mais de 70% dos jovens que têm pensamentos estranhos e alucinações menores não desenvolverão a patologia. Eles se preocupavam com a possibilidade desse diagnóstico se tornar comumente aceito, o que poderia levar a uma expansão enorme e injustificada na prescrição de poderosas drogas antipsicóticas.

 

Fazer com que os jovens joguem jogos de computador não desperta os mesmos medos. “O treinamento cognitivo é provavelmente benigno o suficiente”, segundo Allen Frances, da Duke University, que liderou a oposição ao diagnóstico proposto em 2012. Mas ele continua preocupado com os jovens que nunca desenvolveriam a esquizofrenia, pois estes poderia ficar estigmatizados por um rótulo “de risco”.

 

Travis, por sua vez, conta que gostaria muito de ter tido a oportunidade de acesso precoce a todos os tipos de tratamento. Ele começou a ter problemas de concentração a partir da idade de 14 anos, e foi difícil para se socializar com outras crianças principalmente a partir daí. “Eu acho que minha vida teria sido diferente”, ressalta ele, “se tivessem diagnosticado essa doença antes de ter um episódio completo”, completa.

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Fonte: BuzzFeedNews